8# MUNDO 28.1.15

MISTRIO ARGENTINO
Como a morte do promotor Alberto Nisman, na vspera de depor no Congresso contra a presidente Cristina Kirchner, dificulta ainda mais os planos do governo em um ano de eleies presidenciais
Mariana Queiroz Barboza (mariana.barboza@istoe.com.br)

A feita s grandes tragdias melodramticas que povoam as letras de seus tangos mais desbragados, a Argentina est atnita diante de um mistrio policial ao melhor estilo de Agatha Christie. Entre os personagens principais dessa trama esto a presidente Cristina Kirchner, agentes secretos iranianos e o promotor federal Alberto Nisman, encontrado morto com um tiro na cabea no banheiro de seu apartamento na madrugada da segunda-feira 19. Como todo bom romance policial, uma srie de perguntas permanecem sem resposta e, a cada dia, a tese de que Nisman, um inimigo declarado de Cristina, se suicidou, como apontaram as autoridades policiais antes mesmo de o corpo do promotor esfriar, fica mais fraca. Na quinta-feira 22 a prpria presidente argentina declarou que no acreditava mais na tese de suicdio. Ele foi morto para prejudicar o governo, afirmou Cristina Kirchner em um texto publicado em seu blog. Tudo isso a menos de nove meses das eleies que vo escolher o prximo presidente do pas.

DVIDA - Mais de 70% dos argentinos no creem que Nisman se suicidou

Faltavam poucas horas para o promotor federal Alberto Nisman depor no Congresso argentino sobre uma denncia que havia feito contra o governo, quando foi encontrado morto. Nisman passara os ltimos dez anos em dedicao exclusiva  investigao de um atentado  principal associao judaica do pas, a Amia, ocorrido em 1994. Na denncia, ele conclua que os responsveis pela morte de 85 pessoas eram terroristas iranianos e acusava a presidente Cristina Kirchner e o chanceler Hctor Timerman de acobert-los com o objetivo de fechar acordos comerciais vantajosos com o Ir.

A morte de Nisman suscitou suspeitas quase de forma imediata, principalmente pela deciso apressada das autoridades em determinar que o procurador havia cometido suicdio. Nisman no dava nenhum sinal de que pretendia tirar a vida. No lugar de uma carta de despedida, em seu apartamento havia apenas uma lista de compras. Em vez de convocar a cadeia nacional de rdio e tev, como costuma fazer, Cristina se pronunciou apenas por uma mensagem. Um suicdio provoca, em primeiro lugar, estupor e depois perguntas, escreveu.

 No mesmo dia, milhares de pessoas foram s ruas fazer essas perguntas. Uma pesquisa do instituto Ipsos mostrou que 70% dos argentinos acreditam que Nisman foi assassinado e, para mais da metade deles, o governo  o responsvel pelo crime. O mais difcil ser o governo provar que no tem nada a ver com isso para o imaginrio coletivo, e no para a Justia, disse  ISTO o analista poltico Ral Aragn.

R - Cristina Kirchner seria acusada formalmente por Nisman, no Congresso, na segunda-feira 19

O clima de desconfiana piorou quando a promotora Viviana Fein, que conduz as investigaes da morte de Nisman, disse que lamentavelmente no foram encontrados vestgios de plvora na mo da vtima. Outros pontos mal explicados aumentaram as dvidas. O chaveiro que abriu o apartamento, a pedido da me de Nisman, disse que a porta de servio no estava trancada e qualquer pessoa poderia t-la aberto, contrariando a informao inicial de que o apartamento do procurador estava trancado por dentro. Ao Clarn, jornal oposicionista, Nisman havia dito que temia ser morto. Na quinta-feira 22, a presidente argentina mudou de ideia e se disse convencida de que se tratava de um assassinato.

Ainda  cedo para se descobrir o que de fato aconteceu com Nisman, mas, pela velocidade com que novos fatos tm vindo  tona, tudo parece levar a crer que o procurador no decidiu tirar a vida. Mas, independentemente da descoberta da verdade, uma coisa  certa: a morte de Nisman ficar ligada de forma indelvel  atual presidente argentina.

21 anos depois, atentado no foi esclarecido

Com a maior comunidade judaica da Amrica Latina, a Argentina nunca esqueceu o ataque  sede da Associao Mutual Israelita Argentina, em Buenos Aires, ocorrido na manh de 18 de julho de 1994. A exploso de um carro-bomba deixou 85 mortos e mais de 300 feridos no local. O caso, no entanto, sofreu com a destruio de provas e nunca foi encerrado. O atentado terrorista teria sido orquestrado pelo grupo libans radical Hezbollah e pelo governo do Ir, com a ajuda de policiais argentinos. Em 2006, a Justia responsabilizou cinco iranianos e um libans pelo ataque: todos funcionrios do alto escalo do governo ou da Embaixada do Ir em Buenos Aires. O grupo  procurado pela Interpol (polcia internacional) desde ento, mas ningum foi preso. O pas persa sempre se negou a colaborar com as investigaes.

